quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SUCUPIRINÓPOLIS OU MORRA, ODORICO PARAGUASSU

Francisco Carlos de Mattos¹

“Hoje, eles nos insultam e agridem com palavras E nós não dizemos nada! Amanhã, eles invadem nosso jardim e pisam nossas flores E nós não dizemos nada! Finalmente, arrombam a porta, invadem nossa casa e nos arrancam a língua E nós... já não podemos dizer nada!” (Maiakovsky)

Sabem aquela coleira com controlador de comprimento, que o mecanismo fica na mão das pessoas que saem com os seus cães? Então, é sobre ela ou sobre o que ela faz, a sua essência, é que pretendo trazer à baila para uma breve reflexão.
Numa chuvosa 3ª feira, às 17 horas, saí do serviço e fui direto para o consultório do otorrino, no edifício Vítor Rocha, em frente ao Hospital Santa Isabel, encontrar com a minha mulher e os meus dois filhos. Mudança de temperatura, o sistema respiratório dos meus pimpolhos dá logo o sinal: dor de ouvido, leve dor de cabeça, coriza.
Para retornar à minha casa, pego o ônibus para as Palmeiras e quase tenho que voltar para o nosocômio: pasmem, meus amigos, pois quando passei o meu cartão-transporte, direito do trabalhador, descontado em meu contra-cheque, para liberar o direito de ir e vir, também, para os meus filhos e a minha mulher, eis que tenho meus direitos cerceados, cassados pela empresa de transporte coletivo monopolista, que, também, restringe o meu ir e vir por algumas vezes, tal como faz com o passe-idoso e com o cartão-cidadão.
Sou cidadão, não o cidadão enquadrado nos discursos e que de tanto ser usado politiqueiramente, acaba perdendo a sua força semântica. Não devo nada a ninguém, pago os meus impostos e também faço parte dos contribuintes que estão e são cientes de que tais benefícios nada têm a ver com bondade patronal, até porque é lei.
Tenho consciência de que tal vantagem trabalhista deve ser usado unicamente para o trabalho. Esse é o aspecto legal. Não que use esse espaço para a construção de apologia à ilegalidade, ao errado, à falcatrua, ao uso indevido, mas, o sentimento que fica, é que estamos vivendo um real e incômodo big brother .
Estão controlando os nossos passos, fazendo-nos passar por constrangimentos diante de nossos filhos, de nossa esposa.
Desculpem-me, mas não me deram nada. Eu sou descontado em folha por esse direito de me locomover.
Na ficha que o trabalhador preenche ao requisitar o VT, é claro, como já notificado anteriormente, que ele deve ser utilizado unicamente para o trabalho. Trabalhador brasileiro tem como usa-lo para o lazer? Que lazer?
Terminarei agora, pois o meu próprio veneno me sufoca, com o pensamento maiakovskiano que epigrafa esses escritos: “Finalmente, arrombam a porta, invadem nossa casa e nos arrancam a língua. E nós... já não podemos dizer nada!”

¹. Professor e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio.

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