segunda-feira, 29 de setembro de 2008

COISIFICAÇÃO DA PALAVRA: ERRAMOS TODOS NÓS? OU SOBRE O DITO E O NÃO DITO

Francisco Carlos de Mattos¹

A Inquisição foi criada na Idade Média (século XIII) e era dirigida pela Igreja Católica Romana. Ela era composta por tribunais que julgavam todos aqueles considerados uma ameaça às doutrinas (conjunto de leis) desta instituição. Todos os suspeitos eram perseguidos e julgados, e aqueles que eram condenados, cumpriam as penas que podiam variar desde prisão temporária ou perpétua até a morte na fogueira, onde os condenados eram queimados vivos em plena praça pública. ²

“Onde não há texto, também não há objeto de estudo e de pensamento”. Bakhtin (1992: 329), com essas palavras, delineia um espaço interessante de análise e reflexão sobre as coisas ditas e as não-ditas. As primeiras permitem uma resposta imediata de concordância ou não e incitam para o debate, para a discussão no campo das idéias. As outras, veladas, implícitas em posturas, atitudes, gestos, mexem com a subjetividade e não admitem réplica. São atitudes que falseiam a real intenção de quem as produz, pois na contestação do outro, do ofendido por tais não-palavras, o ofensor se faz de vítima e incorpora o dito subjetivamente pelo não-dito enquanto negação de ter feito. Essas são atitudes de quem se preocupa em não deixar provas, rastros que comunguem contra o seu feito, abrindo espaço para, mais uma vez, fazer valer a instância do subjetivo, do que pertence ao pensamento humano, em oposição ao mundo físico, ao factual, ao visível.
Em alguns momentos e contextos o silêncio `fala`mais que mil palavras e mil palavras não dizem nada em função da sua consistência. Muitas vezes de onde menos se espera a palavra marca mais que chicotada ou vara de marmelo, que enverga, mas não quebra. Conotativamente o dito ou até mesmo o não-dito conseguem encurvar pessoas. A veracidade de tal assertiva se dá quando se consegue acionar o poder de convencimento. Ainda Bakhtin (1992: 333) é quem corrobora com esta linha de pensamento, quando afirma que “o texto não é um objeto, sendo por esta razão impossível eliminar ou neutralizar nele a segunda consciência, a consciência de quem toma conhecimentos dele”. Cientes do poder das palavras, algumas pessoas astutas se valem disso para tirar proveitos pessoais correndo o sério risco de serem incursas em famoso artigo do Código Penal. O mundo está repleto desses velhacos.
Algumas pessoas, ingenuamente, acreditam que aqueles que convivem num lugar específico, numa determinada instituição trazem em si a concepção do sujeito que pensa como os demais, numa perspectiva da mesmice, numa linha de produção de pessoas que pensam, cartesianamente, da mesma forma. caracterizado por Hall (2006) como aquele que se enquadra ou foi enquadrado em um determinado sistema, o que, autonomamente, se deixa levar numa só direção. Século após século, até o atual, este é o paradigma do bom aluno. Este autor em seus estudos sobre ´A identidade cultural na pós-modernidade` denuncia que “esta concepção do sujeito racional, pensante e consciente, situado no centro do conhecimento, tem sido conhecida como `o sujeito cartesiano´ (p. 27). Nessa reflexão, a escola continua inserida num contexto caracterizado por Althusser (1998) como Aparelho Ideológico do Estado. É ela uma das maiores, senão a maior, construtora de marionetes, que vêem o estado como o grande pai ou que se integram aos elementos que aceitam as ações dos governos como, numa visão gramsciana, verdadeiras paternalizações, através de beneficências, das doações de todos os tipos de vales (gás, leite etc.). Para o alimento do espírito, o Pai Todo Poderoso, que nos nutre com as suas bênçãos e para a matéria, o “pai”, também poderoso³, que nos abastece com esses programinhas sem-vergonhas, que se transformam em verdadeiras rédeas eleitoreiras. Se caso encontremos alguma “ovelha desgarrada” que pense diferente, negando tal mecanismo de reprodução, é necessário encerrá-la no lugar mais tenebroso de uma masmorra.
A escola se contradiz quando, por exemplo, abraçando um viés democrático, sugere a toda a comunidade escolar que busque desenvolver nos alunos as suas criticidades; entretanto, quando aparece algum que demonstre ter aprendido bem a lição, alguns professores não sabem como lidar com esse tipo de aluno.
Alguns indivíduos da comunidade escolar acreditam e esperam que o aluno vá construir sua capacidade crítica, para desenvolvê-la fora da escola, que a use para analisar prós e contras da sociedade, sem perceber que a escola é um dos apêndices da mesma e que, por isso mesmo, será, também, criticada. Na verdade, percebe-se que a instituição alimenta um filete de esperança de que as palavras constitutivas de um discurso modelado por ela sejam proferidas por todos os alunos. A escola seleciona o discurso e os repassa aos estudantes e os vocábulos têm que ser repetidos sem tirar nem por uma vírgula que seja. Nesse caso, mais uma vez Bakhtin (1992: 350) se faz referência, quando afirma que “se nada esperamos da palavra, se sabemos de antemão tudo quanto ela pode dizer, esta se separa do diálogo e se coisifica”.
A criticidade das pessoas é demonstrada quando, ao concatenar os conhecimentos construídos e confrontá-los com os contextos vividos, analisando-os, interpretando-os e objetivando-os em textos, conseguem transformá-los em instrumentos de persuasão. O outro ou a segunda consciência que não consegue replicar diante da força do argumento – muitas vezes usa o argumento da força -, se vê convencido e adere ao pensamento do enunciador ou, discordando, recua estrategicamente, para reabastecer-se de fundamentação, de palavras que façam frente às do seu interlocutor. Belo exercício de contradições. Os filósofos da Grécia antiga faziam isso muito bem. Dobravam os seus opositores com belos discursos.

A sentença: “O que somos é o que fizemos do que fizeram de nós”.
_ Trato as pessoas da mesma forma como elas me tratam. – Assim se colocou a aluna, quando acusada de ser malcriada, respondona e de ter atitudes inadequadas.
Quando o conselho de classe extraordinário, constituído pela direção, orientação educacional, inspeção de ensino e professores da turma, convocou a aluna, esta ao entrar na sala onde se daria a reunião, não se portou como o incriminado da época da Inquisição; mas, demonstrou em alguns momentos, que acreditava que a escola iria acionar o dispositivo legal maior contra ela. Diante da leitura dos vários registros desde o final de 2007, ela não negou nenhum.
A aluna foi avaliada pelos professores presentes, como criativa e, de alguma maneira, comprometida com os seus estudos. Quanto aos problemas de ordem comportamental, entendeu-se que os mesmos não foram gerados e nem incentivados neste colégio; mas, são produtos de uma concepção errônea de mundo e de uma preparação profundamente equivocada para a vida.
Ser crítico também passa pela posição de se respeitar a opinião do outro e aceitar as diversidades em todos os campos. A contradição deve ser uma categoria que provoque a discussão, o debate e, como dito acima, a força do argumento e não o argumento da força. Evidente que essa atitude é esperada de pessoas mais centradas, mais experientes e não o contrário. Do jovem, em geral, se espera a impetuosidade do imediatismo, os reflexos do sangue quente, do ´pavio curto`, o ganhar no grito. O que se espera do professor? Aqui também podemos alinhavar o pensamento numa linha gramsciana, quando aludimos que só podemos ser intransigentes na ação se tivermos sido tolerantes na discussão, se os que estavam mais bem preparados tiverem ajudado os menos preparados a compreender a verdade, com a preocupação de não fazê-lo de uma forma dogmática e absoluta, como algo já maduro e perfeito.
Seria justo uma instituição que prega a democracia e a criticidade transferir para outro lugar o que entende como um problema? Não é cômodo demais remover para outra escola uma questão sem esgotar as possibilidades de resolução da mesma?
Nem tudo é o que quer aparentar ser. Numa adaptação livre, podemos reforçar com Foucault (1992: 25) que

por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam.

Negar o instituído, burlar regras e, caetanamente, proibir o proibido são atitudes anarquistas desenvolvidas pela verve juvenil, que não se preocupa com os aspectos teóricos que fundamentam essa doutrina filosófica. Simplesmente a desenvolvem. É próprio do adolescente.
É necessário e imprescindível que, em geral, os jovens saibam lidar com as palavras de tal maneira que elas não se coisifiquem, percam o sentido. Neste caso, é imperioso que entendam, que não são as palavras que magoam, mas como elas são ditas, proferidas ou seja, o que importa não é o conteúdo, mas a forma.
A escola, sensatamente, prefere investir naquilo que lhe é peculiar e que tanto a sociedade espera dela: educar.
Confesso que eu, assim como a maioria que compunha o conselho, não esperava outra atitude.
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¹. Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio, atualmente nas E.M. Márcia Francesconi Pereira e Alfredo Castro, ambas do 6º ao 9º ano
². Disponível em: http://www.suapesquisa.com/historia/inquisicao/ . Acesso e captura em 23 de setembro de 2008.
³. Essa idéia também encontra-se em Gramsci (s/d: 153), quando afirma que
“(...) reflete-se em pequena escala o que ocorria em escala nacional, quando o Estado era concebido como algo abstraído da coletividade dos cidadãos, como um pai eterno que tinha pensado em tudo, providenciado tudo (...)

Referências Bibliográficas
ALTHUSSER, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal; [tradução feita a partir do francês por Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira; revisão da tradução Marina Appenzeller]. – São Paulo: Martins Fontes, 1992. – (Coleção ensino superior).
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; [tradução de Salma Tannus Muchail]. 6ª ed, - São Paulo: Martins Fontes, 1992.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. São Paulo: Círculo do livro S.A., s/d.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade; [tradução Tomás Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro]. 11. ed. – Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

NA BOCA DO POVO

Francisco Carlos de Mattos*

“A concepção que o locutor (ou o escritor) faz do destinatário do seu discurso é um problema importantíssimo na história da literatura” (Bakhtin, 1992: 324).
“Tudo o que é dito, expresso, situa-se fora da “alma”, fora do locutor, não lhe pertence com exclusividade. Não se pode deixar a palavra para o locutor apenas. O autor (o locutor) tem seus direitos imprescritíveis sobre a palavra, mas também o ouvinte tem seus direitos, e todos aqueles cujas vozes soam na palavra têm seus direitos (não existe palavra que não seja de alguém). A palavra é um drama com três personagens (não é um dueto, mas um trio). É representado fora do autor, e não se pode introjetá-lo (introjeção) no autor” (Bakhtin, 1992: 350).
Mesmo, ainda, com uma dentição primária, aos doze anos, o meu filho apresenta uma bela arcada dentária. Percebi quando, mais uma vez, estava conversando com ele sobre o assunto que mais gosta, por ter um domínio extraordinário como resultado das constantes leituras de jornais, pesquisas nos diversos "esportes.com", que é o futebol.
Engraçado como, de repente, fui acometido da vontade de, concomitantemente, escrever algo sobre alguns assuntos distintos, tais como dentição, cárie, futebol, estudo, pesquisa, paternidade, minha mãe, meus filhos (a partir do primogênito), pobreza, lágrimas e dignidade. E olhem que eu estava em plena construção de um outro texto-relatório de uma fatia do meu cotidiano profissional. Tomara que aconteçam outras vezes, pois, acredito, isso é fruto da produtividade e da impetuosidade escritora. Isso me remete a Bakhtin (1992: 357) quando, resgatando Marx, afirma que

Karl Marx dizia que, somente ao ser enunciado na palavra, um pensamento torna-se real para o outro e, portanto, para si mesmo. Mas esse outro não é unicamente o outro no imediato (destinatário, segundo) Em sua busca de uma compreensão responsiva, a palavra sempre vai mais longe.
O fato de ser ouvido, por si só, estabelece uma relação dialógica. A palavra quer ser ouvida, compreendida, respondida e quer, por sua vez, responder à resposta, e assim ad infinitum.

Mas, enquanto falava, em pé ao meu lado – e eu sentado na cadeira giratória da mesa do computador – eu “viajava” entre os seus dentes, percebendo a ausência, não de cáries que muitas vezes só são detectadas pelo dentista, daquelas malditas ´panelas` que há 35, 40 anos apareciam na boca da população, resultados de uma falta de educação preventiva e da concepção errônea de que a ulceração dentária não era doença. Cadeira de dentista, boticão eram coisas de poucos, pouquíssimos bacanas, como se dizia na época. Eu não era bacana; portanto, carregava uma baixela inteira na boca. Além da falta de educação, também, o que não é prerrogativa dos tempos atuais, vivia-se num perrengue das algibeiras de fazer chorar.
É de fazer chorar também, as lembranças do esforço sobrenatural da minha saudosa mãezinha de fazer chegar comida à mesa e daí para as nossas bocas. Garantir as refeições era prioridade máxima. O que viesse depois era mero detalhe, pura bobagem.
Nas escolas parecia que igualmente a preocupação era norteada para esse aspecto. Para muitas crianças – arrisca-se dizer para a maioria -, a merenda supria – sempre – o almoço inexistente em casa. Inquietação com a higiene pós-refeições também inexistia nesses lugares. Temas transversais? Não se pode alegar que não existiam. Diferentes das grandes preocupações da comunidade acadêmica da atualidade, como Ética, Meio ambiente, Saúde, Pluralidade cultural, trabalho e consumo e Orientação sexual, os temas eram outros e quem os ditava era o povo que acorria às escolas públicas. Viam-se muitos assuntos como medo, miséria, fome, analfabetismo, repressão, tortura(s), violências de todos os matizes. Os currículos escolares daquela época, sofriam, do mesmo modo, uma constrangedora transversalidade, que rasgava as entranhas.
Recordo-me, que naqueles tempos idos – e vão tarde! -, a Prefeitura de Natal, Rio Grande do Norte, desenvolveu no período de fevereiro de 1961 a março de 1964 (argh!) a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, mesmo período em que o mestre Paulo Freire, em Angicos, interior desse estado, lançava a pedra fundamental do seu projeto de Alfabetização ¹. De alguma maneira, o país começava a dar passos importantíssimos para a erradicação dessa vertente violenta de construção de “panelas dentárias” na boca do povo. Hoje ainda existem alguns, digamos, bules e frigideiras. Desculpem-me, mas não tinha como fugir dessas ulcerações generalizadas.
E este texto começou com comentários sobre futebol. Vocês lembram? Pois bem, Hoje meu filho gosta desse esporte, movido por uma paixão pura. Gosta porque gosta sem imposições. Garanto-lhes que até o time foi escolhido sem que infligíssemos qualquer coisa... bem...
Não se pode afiançar que o mesmo tenha acontecido nesse recorte histórico que estamos alinhavando. Até hoje muitos de nós temos um ossinho de galinha atravessado na garganta por conta da Copa de 70, da Seleção Canarinho. Particularmente não consegui entender o que, repentinamente, transformou o Júnior num compositor, quando libertou aquele famigerado passarinho. Algumas pessoas afirmam que ou ele libertava o passarinho ou seria preso.
Acredito, que a minha santa mãe, onde quer que se encontre, esteja desenhando um sorriso nos lábios, por eu não ter me tornado um jogador de futebol, nem compositor, nem passarinheiro, nem militar. Paneleiro aqui pode até ser aquele que faz ou vende panelas, mas em Portugal é outra coisa extremamente diferente. Não fui e não sou nenhuma nem outra coisa e nem tenho mais as incômodas crateras dentárias a que se denominava de panelas. Nem o meu filho. Venho desenvolvendo algumas reflexões, que, pretensamente, me encaminham, mesmo que muito distante, para a direção de Paulo Freire. Isso sim alegra minha mãe, tenho certeza disso.
Quem sabe eu não venha cair na “boca do povo”, no sorriso das mães, na simpatia dos filhos e nas lágrimas de satisfação dos que abrem a boca para sorrir, para falar, para reclamar, para gritar sem a preocupação de que ao abri-la, apareça alguma panelinha onde, por ventura, possa se esconder algum bichinho da cárie.
Entendemos então, e mais uma vez, com Bakhtin², nessas breves exposição e resgate mnemônicas, que
mesmo reconhecendo que todas as descrições dos atos diferem fundamentalmente dos atos tais como eles realmente são realizados, ele procura descrever - o próprio ato. É uma maneira particularmente complexa de demonstrar a verdade do velho dito segundo o qual você não pode escapar da teoria, porque qualquer oposição à teoria é em si inelutavelmente teórica (p. 8).
Foi o que tentamos, de alguma maneira, demonstrar nessas poucas linhas traçadas, convicto de que algumas falhas são inevitáveis por força da época histórica trazida à memória. Os dentes podem estar ótimos, mas os neurônios não podemos afirmar.
Que a cárie corrói os dentes, não temos dúvidas. Que ela é, antes, um ato de corrosão de políticas públicas da saúde do povo, também não. O que não pode acontecer, é que tais desmandos continuem a ser atos de corrosão da dignidade humana.
Por essas coisas, a minha mãe não pode estar feliz. Tenho certeza que a mãe de ninguém!
_________________________
* Professor e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio - RJ

¹. As primeiras experiências do Método Paulo Freire começaram na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1962, onde 300 trabalhadores foram alfabetizados em 45 dias.
No ano seguinte, foi convidado pelo presidente João Goulart para repensar a alfabetização de adultos em âmbito nacional. O golpe militar interrompeu os trabalhos e reprimiu toda a mobilização popular. ( Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ea/v15n42/v15n42a13.pdf. Acesso e captura em 22.09.2008)


Referências Bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal [tradução feita a partir do francês por Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira; revisão da tradução Marina Appenzeller]. – São Paulo: Martins Fontes, 1992. – (Coleção Ensino Superior).
BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato [tradução de Carlos Alberto FARACO e Cristóvão TEZZA]. Texto completo da edição americana Toward a Philosophy of the Act (Austin: University of \texas Press, 1993). Tradução ainda não revisada, destina-se exclusivamente para uso didático e acadêmico. Disponível em:
www.grupos.com.br/group/teoriadialogica/Messages.html?action=download&year=08&month

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

DA EQUIVOCADA ETIMOLOGIA DE ALUNO* AO BRILHANTISMO DOS MEUS ORIENTANDOS

Francisco Carlos de Mattos **
Quanto mais contesta o sistema escolar e o enrijecimento de práticas contestadoras, melhor é o aluno para a Orientação Educacional.
Alguns companheiros e companheiras podem manifestar as suas indignações – belo exercício do ser humano de dizer não ao que entende como errado- em relação a esse pensamento. Se podem fazê-lo, há que se perguntar, se os alunos também não o possam.
O que se pode fazer por e com esses aprendizes, neófitos de uma pretensa revolução escolar, é orientá-los e prepará-los para a construção da força do argumento e tentar afastá-los - tarefa inglória e profundamente difícil, diante dos caminhos trilhados pela nova ordem mundial* - da vontade, do ímpeto juvenil de usar o argumento da força, próprio dos que não conseguem construir um discurso convincente (aqui se inclui também um número considerável de adultos). Esta é uma das missões da Orientação Educacional, até porque não haveria razão da sua existência na escola, se todos os alunos fossem encaixilhados, se mantivessem posturas, atitudes e comportamentos como as de um monge.
Esses alunos e alunas são, escusando-me pela, talvez, infeliz comparação, para mim, como os bebês deixados na “roda dos expostos”¹. Vejo dessa maneira esses meninos e meninas, principalmente, os que normalmente são encaminhados ao profissional da Orientação Educacional, postos para fora da sala de aula, os que não se adaptam aos padrões estabelecidos pelo Regimento Escolar, pelo instituído, os que negam, segundo Foucault (1988: 126),
métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade (...) que visa (...) a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente (...) A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”.
É de bom alvitre esclarecer, que não estou, nesse espaço, fazendo nenhuma apologia ao motim contra a direção escolar e à constituição legal do enquadre sócio-educativo, que disciplina (mil perdões a Foucault!) a convivência entre as pessoas que fazem parte da instituição. Muito pelo contrário, tento contribuir com uma reflexão de uma premência sempre viva e querida, como profetizado por Geraldo Vandré ² “nas escolas, nas ruas, campos, construções” e, também, nas nossas casas. Diante de tantas violências, dos mais variados matizes, não é de todo ruim que os nossos filhos, alunos se rebelem, mostrem suas contradições, suas indignações, contestem em nossas casas, nas nossas escolas. Esses lugares são propícios para que tal aconteça, pois temos a oportunidade de educá-los – diferentemente de doutriná-los – a como fazê-lo. Não é o ato em si de contestar, que pais e professores devem negar ou se precaver; mas, como contestar. O que vem a ser incômodo não é o conteúdo, mas a forma... em quaisquer circunstâncias.
Esta não é nem pode ser vista e entendida como uma tarefa só do Orientador Educacional; mas, do educador que orienta em todos os níveis,que não restringe a sua ação educativa ao simplório ato de divulgador de informações científicas e esse papel também é do professor.
Não tem nem como pontuarmos, enquanto motivo para esses entraves nas relações sócio-afetivas entre professor e aluno, o conflito de gerações, como muito se fazia na época em que cursei o meu inesquecível 2º grau (denominação da época). Hoje é cada vez mais visível a presença de docentes com 21, 22 anos de idade nas salas de aula. “Meninos” ainda cronologicamente muito próximos da puberdade, deixada num ontem ainda vibrante em suas veias. Muitos desses ainda se pegam e são pegos, em alguns momentos de suas vidas pessoal ou profissional, com certas posturas adolescentes. Não que isso seja condenável. Depende do lugar e da hora em que tal aconteça.
Do conflito ao confronto. Agora as idéias não se opõem, muito ao contrário, elas se defrontam, se colocam face a face. Do velho professor que critica certas atitudes, sendo analisado pelos alunos como ultrapassado, careta, péla-saco e outros adjetivos não muito recomendados para esse espaço, conflitando-se com os meninos ao jovem docente, que com tenra idade, é percebido e observado como uma ameaça, como mais um a ocupar um espaço de conquistas de espaços... também em todos os sentidos! Então, aquele é o paradigma da ameaça à liberdade do se fazer aparecer, do, caetanamente, “é proibido proibir” e esse é mais um a querer uma fatia do mercado em que a efervescência hormonal é a mola mestra e com o agravante de, pelo seu status, pelo papel social exercido por força de sua formação, se tornar o centro das atenções.
Estão numa idade em que não precisam e nem querem inimigos. Ninguém precisa e quer. Muito menos eles.
Queremos amigos. Precisamos deles. Queremos partilhar conquistas. Precisamos socializar vitórias.
É necessário que não percamos... nunca... a capacidade de sonhar, de nos apaixonar, de amar. Precisamos entender que a tristeza, o estado de prostração de um(a) adolescente quando ´deixa de ficar` ou – perdoem-me meninos e meninas – rompem um namoro, naquele momento, é mais doloroso e terrível do que perder um bem material de valor para muitas pessoas. Perda é perda, mas um grande amor – e naquele momento é o maior do mundo e `nunca mais` teremos outro igual. Teremos muitos outros, mas igual, não!
_ Um grande amor só se esquece com outro grande amor! – Filosofei, com um aperto no coração pelo sincero pesar do menino, tentando mostrar-lhe, que essa é a idade das muitas paixões, dos vários amores, de beijar muito. Lembro-me, que há 35 anos essa frase surtiu um efeito positivo em mim. O tempo não consegue tirar-lhe a força semântica.
Precisamos resgatar a capacidade de nos emocionar. Chorar nunca foi coisa de `mulherzinha`... é coisa de homem... de ser humano... ter sensibilidade não é para qualquer um... é, deveras, coisa de macho. Apesar e além de não “robertocarlosear” , mas respeitar quem goste dele, e dando seqüência a idéia das reticências postas nessas reflexões, provoco a subjetividade e deixo outras com o verso desse cantor e compositor: “é preciso saber viver!”.
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* Equivocadamente foi divulgado que vem do latim alumnus (a-lumnus), que significa sem luz.
** Professor e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio. Atualmente exercendo a segunda função no Colégio Municipal Rui Barbosa e desenvolvendo o cargo de coordenação desses profissionais, que atuam do 6º ao 9º anos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio.
¹. Esse mecanismo remonta à Idade Média, quando, por volta do século XIII, a Igreja Católica resolveu acolher crianças rejeitadas por suas famílias. Para isso, eram disponibilizados espaços giratórios conhecidos como "roda dos expostos", onde se colocava o bebê de um lado, para que fosse retirado do outro, mantendo-se o anonimato. Essa prática se disseminou e chegou ao Brasil em 1730, com a instalação de "rodas" em algumas Santas Casas da Misericórdia. No entanto, na primeira metade do século XX, o procedimento foi extinto.
². VANDRÉ, Geraldo. Pra não dizer que não falei de flores. Canção escrita e interpretada por
Geraldo Vandré no Festival Internacional da Canção de 1968. . Ficou em segundo lugar.

Referência Bibliográfica:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1988.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SUCUPIRINÓPOLIS OU MORRA, ODORICO PARAGUASSU

Francisco Carlos de Mattos¹

“Hoje, eles nos insultam e agridem com palavras E nós não dizemos nada! Amanhã, eles invadem nosso jardim e pisam nossas flores E nós não dizemos nada! Finalmente, arrombam a porta, invadem nossa casa e nos arrancam a língua E nós... já não podemos dizer nada!” (Maiakovsky)

Sabem aquela coleira com controlador de comprimento, que o mecanismo fica na mão das pessoas que saem com os seus cães? Então, é sobre ela ou sobre o que ela faz, a sua essência, é que pretendo trazer à baila para uma breve reflexão.
Numa chuvosa 3ª feira, às 17 horas, saí do serviço e fui direto para o consultório do otorrino, no edifício Vítor Rocha, em frente ao Hospital Santa Isabel, encontrar com a minha mulher e os meus dois filhos. Mudança de temperatura, o sistema respiratório dos meus pimpolhos dá logo o sinal: dor de ouvido, leve dor de cabeça, coriza.
Para retornar à minha casa, pego o ônibus para as Palmeiras e quase tenho que voltar para o nosocômio: pasmem, meus amigos, pois quando passei o meu cartão-transporte, direito do trabalhador, descontado em meu contra-cheque, para liberar o direito de ir e vir, também, para os meus filhos e a minha mulher, eis que tenho meus direitos cerceados, cassados pela empresa de transporte coletivo monopolista, que, também, restringe o meu ir e vir por algumas vezes, tal como faz com o passe-idoso e com o cartão-cidadão.
Sou cidadão, não o cidadão enquadrado nos discursos e que de tanto ser usado politiqueiramente, acaba perdendo a sua força semântica. Não devo nada a ninguém, pago os meus impostos e também faço parte dos contribuintes que estão e são cientes de que tais benefícios nada têm a ver com bondade patronal, até porque é lei.
Tenho consciência de que tal vantagem trabalhista deve ser usado unicamente para o trabalho. Esse é o aspecto legal. Não que use esse espaço para a construção de apologia à ilegalidade, ao errado, à falcatrua, ao uso indevido, mas, o sentimento que fica, é que estamos vivendo um real e incômodo big brother .
Estão controlando os nossos passos, fazendo-nos passar por constrangimentos diante de nossos filhos, de nossa esposa.
Desculpem-me, mas não me deram nada. Eu sou descontado em folha por esse direito de me locomover.
Na ficha que o trabalhador preenche ao requisitar o VT, é claro, como já notificado anteriormente, que ele deve ser utilizado unicamente para o trabalho. Trabalhador brasileiro tem como usa-lo para o lazer? Que lazer?
Terminarei agora, pois o meu próprio veneno me sufoca, com o pensamento maiakovskiano que epigrafa esses escritos: “Finalmente, arrombam a porta, invadem nossa casa e nos arrancam a língua. E nós... já não podemos dizer nada!”

¹. Professor e Orientador Educacional da Rede Pública Municipal de Cabo Frio.

domingo, 14 de setembro de 2008

OUTROS MUNICÍPIOS FAZEM: POR QUE NÃO O NOSSO?

UFF recebe prédio para implantação de Pólo Costa Verde em Angra dos Reis.
Termo de cessão de uso e transferência da posse direta à UFF tem vigência de 30 anos. O prédio tem aproximadamente 1,2 mil metros quadrados, com biblioteca, laboratório de informática, auditório com capacidade para 100 pessoas, além de salas de aula, de coordenação e de professores.
Sem muitas delongas, cabem algumas indagações: a responsabilidade da entrada de instituições federais em determinado município é de que âmbito da esfera municipal? Secretaria de Educação? De Ciência e Tecnologia? De quem? Só do prefeito? Quais articulações políticas devem ser postas em ação para que tal idéia seja concretizada? Quais interesses? Quais conveniências? O prefeito tem que ser do mesmo partido do Secretário Estadual de educação? Do Ministro da Educação? Existe algum interesse público nessas articulações ou é pura ingenuidade de minha parte pensar dessa forma?
Desculpem-me pelo sentimento profundamente negativo e que denota uma atitude moral desprezível, deixando pairar no ar um gosto de derrota, mas, MORRO DE INVEJA DE ANGRA DOS REIS,mas mesmo assim, lhe desejo sucesso, pois sei que a qualidade de vida do povo dessa simpática cidade, irá dar um salto relevantíssimo.

sábado, 13 de setembro de 2008

"Pobreza não é sina, azar, ou mau jeito, é injustiça¹ " ou Pedagogia da pergunta

OBS.: Esse texto foi produzido e publicado em 24 de fevereiro do ano em curso. Hoje, 13 de setembro, portanto, a 22 dias das eleições municipais de 05 de outubro, o momento histórico-político torna a sua reedição um fato de suma importância, uma necessidade profundamente relevante. Espero que o seja, também, para você.


(Artigo científico) escrito em domingo 24 fevereiro 2008 19:13

Aula é pura transferência de valores, de informações científicas? A essência das ciências trabalhadas pelo professor, é filtrada pela ótica do mesmo? Que ótica é essa? Como é construída? Como se constitui no homem? Os pontos de vista são conseqüência da vista de um ponto? O que queremos que os alunos aprendam, absorvam? Os conteúdos escolares inseridos no planejamento de ensino, refletem o cotidiano da maioria dos alunos? São, deveras, significativos? Encaixam-se enquanto respostas para os problemas do cotidiano? Podemos vê-los como solução para esclarecer o que acontece no mundo, na vida? Nos ensina a ler o contexto mais amplo? Nos oferecem "lentes de grau" para observarmos melhor as falcatruas, as roubalheiras de dinheiro público que eleva à condição de dominantes 1% da população brasileira e de dominados os 99% restantes? Nos permitem perceber que políticas públicas passaram a ser instrumento de barganha pública de políticas? Que desigualdade social refletida na ausência de direitos civis e políticos básicos, tais como educação, saúde, habitação, saneamento básico, a geração de emprego e etc., é fator desencadeante e desencadeador de violências em suas diversas facetas? Na formação do professor estão inseridos conhecimentos que o levam à reflexão desses questionamentos? Há espaços para a formação humana, para aspectos afetivos, para se falar de amor num currículo essencialmente frio, calculista e norteado para o desenvolvimento de valores materialistas, quantitativos, profundamente capitalistas? Em que campo de ação é feita uma ponderação sobre a inserção do homem na sociedade capitalista alienante e desumanizadora? Quem forma o professor que forma o professor inseriu-se ou insere-se nesse contexto interrrogativo? Sabe o professor, que os filhos desse 1% que está no topo piramidal não estão nem aí para ele e nem para o tipo de educação que se implementa aqui no Brasil, já que estuda nas melhores universidades, principalmente, européias, preparando-se para as futuras lideranças do país, inclusive para ser o mandatário desse profissional e dos filhos dele?.



DEMO, Pedro. Pesquisa: princípio científico e princípio educativo. São Paulo: Cortez, 1992, p. 78.

sábado, 6 de setembro de 2008

VALE A PENA LER!!!

Está aberto o período da caça aos votos e, para isso, das promessas vãs, da promessa de amor eterno ao ser humano, principalmente quando já eleitor. Pobre é a coisinha mais engraçada desse mundo... até o dia 15 de outubro!

É de suma importância o acesso à literatura esclarecedora das falcatruas. Ao lado uma indicação.